Descafeinado, por favor

14 out

Não conseguia parar de pensar no convite de Pedro para tomarmos café juntos na manhã seguinte. Passei a tarde inteira provando todas as minhas roupas, até mesmo aquelas meio mofadas da gaveta que não vestia há anos e acabei escolhendo uma camiseta dos Beatles, jeans e meu par de Converses preto. Como sempre. Pensei melhor, encarei a calça rasgada no joelho por alguns minutos e vi que era melhor vestir uma saia. E uma sapatilha. Sei lá, parecia mais atraente.

Já com o figurino definido, fui para frente do espelho. Fiquei lá durante uma hora e meia tentando rir sem parecer um cavalo. Sim, eu ria e ficava com a boca escancarada como a de um cavalo. Não queria parecer um cavalo. Pelo menos não quando saísse com Pedro. O que ele iria pensar sobre mim, afinal? Após várias tentativas, cheguei à conclusão de que era melhor evitar minha risada em qualquer circunstância. Não dava pra rir de outra forma. Eu sempre ri e sempre riria parecendo um equino.

Maquiagem? Nunca ligara pra isso até aquele momento. Iria tomar café com Pedro e queria vê-lo feliz. Fui de fininho ao quarto da minha irmã e peguei seu Ruby Woo. Jamais tinha passado batons escuros, porém aquela situação seria singular.

Dormi mal, tamanha minha preocupação. Fiquei um bom tempo alisando o cabelo, coloquei a sapatilha e passei batom nos lábios. Saí de casa cheia de esperança.

Cheguei ao Café. Pedro já estava lá. Pareceu surpreso quando me viu. Olhou-me dos pés à cabeça.

– Oi, Olívia, você tá… diferente.

Sentei-me e conversamos um pouco, bem menos que o normal. Eu ficava tentando não rir e acredito que ele percebeu.

– Tá tudo bem? – perguntava ele, confuso.

Claro que estava tudo bem. Por que não estaria tudo bem? Quero dizer, tentar não rir era péssimo e ficar checando se o batom estava falhado também, mas sabia que isso seria com bom para nós. Queria muito impressioná-lo.

Era ele quem não estava bem. Nunca o senti tão desconfortável. Chegou um momento em que parou de contar suas piadinhas idiotas. Até parou de rir. Olhou pra mim, sem jeito.

– Acho que já tá na minha hora.

– Mas está cedo! Nós costumamos ficar durante horas conversando. O que aconteceu?

– Eu é que te pergunto: o que aconteceu? O que deu em você? – ele se levantou e elevou a voz.

– Do que você tá falando?

– Você aparece aqui de saia, sapatinho de princesa, batom vermelho, fica com essa cara de bunda e ainda diz que tá tudo bem? Você não tá nada bem! Quer saber, eu devo ter me enganado… Sabe aquela garota que estava sempre de jeans, tênis e um monte de cachos lindos? Eu gostava dela. Onde ela está?

Permaneci estática por três segundos. Tive vontade de arrancar a saia ali mesmo. Mas, ao invés disso, eu ri. Ri parecendo uma égua, mais do que nunca. Ele sorriu.

– Por um instante achei que tinha te perdido.

Depois disso, ele se encarregou de arrancar o meu batom.

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